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OPINIÃO l Mais tempo para o exercício da paternidade

Aug 08, 2013

Artigo do presidente da Liga do Desporto, Jean Gaspar, por ocasião do Dia dos Pais

Jean Gaspar

A comemoração do Dia dos Pais acontece em praticamente o mundo todo, ainda que em cada país seja celebrado em diferentes ocasiões. Embora o Dia dos Pais se resuma, muitas vezes, apenas a um momento oportuno para o comércio, proponho aqui resgatarmos o sentido original atribuído à data – a importância do pai na formação das futuras gerações – e como, em termos de sociedade, podemos melhorar essa relação.

Para iniciar, recorro ao filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, que diz, em seu célebre tratado “Emílio, ou Da Educação” (1762): "Um pai, quando gera e sustenta filhos, só realiza com isso um terço de sua tarefa. Ele deve homens à sua espécie, deve à sociedade homens sociáveis, deve cidadãos ao Estado. Todo homem que pode pagar essa dívida tríplice e não paga é culpado, e talvez ainda mais culpado quando só paga pela metade. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai. Não há pobreza, trabalhos nem respeito humano que o dispensem de sustentar seus filhos e de educá-los ele próprio". Pois bem, se educar é uma arte, os pais devem tornar-se excelentes artistas apresentando à sociedade seres humanos sociáveis.

Vale, portanto, discutir o papel e a função de ser pai. O papel do pai está mais voltado para as expectativas sociais, culturais e morais de como ele deve se comportar em relação à sua família e a seu filho. Nesse sentido, ele deve ser um provedor material, de educação, saúde etc. Do ponto de vista legal, há inclusive uma lei, que permite aos filhos processarem seus pais por falta de amparo. Porém, esses aspectos são relativos ao papel do pai, é o que se espera que o pai desempenhe. A função do pai diz mais respeito à formação emocional e da personalidade da criança. 

O pai vai surgir como um exemplo em muitos aspectos para o filho. O pai é aquele que deve estimular a criança a sair do vínculo simbiótico com a mãe, induzindo-a a ir se desligando da mãe e se introduzindo na sociedade. A tendência natural da criança é estar grudada com a mãe o tempo todo, ser o centro das atenções e ter a mãe como objeto de seu controle. O pai será aquela pessoa que vai colocar a criança no convívio com a sociedade e vai fazer com que ela aprenda a dividir esse amor pela mãe com outras pessoas. A criança, primeiro, vai aprender a dividir essa atenção dentro do ambiente familiar, depois na escola, com a sua turma na adolescência, com seu grupo de trabalho na idade adulta, e vai destituindo seus amores primitivos por outros. A função do pai é formar uma criança que saberá dividir e lidar com seus desejos, assim ela conseguirá conviver em sociedade de forma mais harmônica. 


Se educar é uma arte, os pais devem se tornar excelentes artistas apresentando à sociedade seres humanos sociáveis.


Nos últimos anos, avanços significativos foram instituídos nas relações familiares em relação à proteção de pais e filhos separados: a regulamentação da guarda compartilhada, a abrangência da discussão acerca da alienação parental, o projeto de lei que garante participação de pais separados na vida escolar do filho são exemplos positivos e que vêm ao encontro do momento atual. Isso demonstra que o poder público pode, sim, interferir positivamente na vida privada das pessoas.

Exemplo significativo é a legislação na Suécia, onde há a licença parental (para igualar os direitos de pais e mães, não chamam de licença maternidade ou paternidade). Trata-se do esforço do Estado em proporcionar à criança os cuidados de pai e mãe. Para os suecos, o período oferecido é de 480 dias (pagamento de 80% do salário em 390 dias e um valor fixo para os demais), divididos entre mãe e pai. A licença parental pode ser usada até os oito anos da criança (sendo que a mãe deve tirar 14 dias e o pai 10 no período do nascimento), mas geralmente os pais usufruem do benefício ainda na primeira infância do filho. 

Na Islândia, a licença remunerada é de nove meses (três para a mãe, três para o pai e mais três repartidos entre eles). Na Dinamarca, a licença é mais curta: para a mãe, quatro semanas antes do nascimento do bebê e mais 14 semanas depois, e ao pai, duas semanas neste período. Depois, mais 32 semanas, divididas entre eles. Há ainda direito a outras licenças, como, por exemplo, se o filho adoecer.

O resultado prático é que os pais estão tendo a oportunidade para ficarem mais próximos de seus filhos.

Enquanto ainda não temos por aqui leis que garantam esse maior convívio entre pais e filhos, algumas atitudes simples fazem toda a diferença nesse relacionamento e podem ser adotadas desde já. A atenção ao dia a dia dos filhos é uma delas e se manifesta em pequenos comportamentos, como saber os nomes dos amigos, dos programas prediletos, dos brinquedos favoritos e mostrar interesse, como olhar nos olhos, baixar o som da TV ou deixar o que está fazendo, quando o filho o procurar.  Passa também por manter o bom humor, especialmente com os jovens, que respeitam muito menos quem está de mal com a vida. Levar os filhos ao local de trabalho é outra forma de integrá-lo a sua vida e ensina o filho o que é trabalhar. É também importante reservar um momento do dia e, especialmente do fim de semana, para que haja lazer com filhos, nem que seja apenas assistir a um filme, jogar no computador ou brincar num parque.

Que este Dia dos Pais seja uma oportunidade para uma autorreflexão e revisão de atitudes pessoais, bem como para pensarmos nos caminhos legais para ampliar a presença dos pais na família.

Aproveito, ainda, para agradecer a meu pai, por me tornar um cidadão, e a minha esposa Patricia, por me presentear com a Carol, pois é com ela que tenho o valioso prazer de ouvir todos os dias a palavra PAPAI.

Feliz Dia dos Pais a todos.


Jean Gaspar, mestre em Filosofia pela PUC/SP, é apresentador do programa Filosofia no Cotidiano (TV Cantareira) e presidente da Liga do Desporto, entidade que promove atividades físicas e desportivas como instrumento de educação e formação da cidadania.

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