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Degeneração do grotesco, crise da mídia e manipulação ideológica

Jan 11, 2006

Tendência avassaladora dentro do processo de transnacionalização da cultura, durante os anos 90, o info-entertainment – mistura (em doses variáveis de cada elemento) de jornalismo e entretenimento – é um movimento freqüentemente identificado com a degeneração da prática jornalística e decadência cultural. Não faltam elementos para esta caracterização, mas antes de analisarmos as peculiaridades e diversidade das funções do jornalismo e da indústria cultural, lembramos que os dois formam o campo da grande produção cultural e seguem essencialmente uma lógica produtiva que a aproximam da lógica mercantil do populismo televisivo.

Por mais que possamos louvar o jornalismo pela função que exerce na estrutura política do modelo democrático, a mídia igualmente marginaliza de modo imediato aquilo que está fora dela, alienando qualquer idéia ou pessoa que não se submeta aos seus padrões. Como lembra Casttels – mesmo salientando que dizer que “a mídia é o espaço da política não quer dizer que a televisão determina as decisões tomadas pelas pessoas” –, a política está inserida na lógica da indústria da comunicação, pois “sem a mídia as propostas e candidatos não têm chance de obter base de apoio” [1]. Alguns, como Ianni, até mesmo a colocam no centro do processo, chamando-a de “democracia eletrônica” [2] em uma atualização dos arquétipos gramsciano e maquiavélico.De um modo ou de outro, o sistema de comunicação captura o espaço político, que passa a se dar conforme as regras da indústria cultural [3].

Dentro deste contexto, nossa preocupação, além das questões estritamente ligadas ao campo da comunicação, se estende prioritariamente para as implicações sociais da atividade jornalística. Para nós, o entendimento do que se passa entre o indivíduo e os meios é apenas uma forma de coletar indícios para começarmos a refletir sobre o que é o homem moderno e que tipo de sociedade é a capaz de ser construída por ele. Pela amplitude do problema que propomos, achamos prudente desde já declarar nossa expectativa em relação a este trabalho: o vemos com um ponto de partida para uma reflexão a se desenvolver em longo prazo.

Pretendemos focalizar o ponto em que os meios interferem nas relações entre os homens e a relevância política dos mesmos, ou seja, na relação entre meios de comunicação e espaço público. Para tanto, mapearemos aqui os conceitos que embasarão futuramente tal análise. Começamos com uma crítica da mídia dita séria para depois abordarmos o sensacionalismo, empreendendo a seguir reflexão sobre a estrutura midiática e sua função nas estruturas de poder na sociedade.

A degeneração do grotesco e a absorção do popular pela sociedade de massas
 
A crítica ao popular na televisão freqüentemente é feita pela associação deste com o grotesco, que resultaria em degeneração de valores considerados importantes para a sociedade a qual estes programas se dirigem. No entanto, desde ao menos Bakhtin temos uma outra visão do que representa o grotesco: uma forma de resistência da cultura popular em relação á cultura erudita.  

Neste sentido, poderíamos  intuir que quanto mais afastado dos cânones do jornalismo “clássico” e mais próximo do entretenimento (isto é, do cômico e do grotesco), menos forte se faz o discurso hegemônico. No entanto, diferentemente do espaço público que o popular constrói no contexto medieval bakhtiniano, onde a cultura culta é destituída de seu poder pela negação do medo que esta erudição produz, o grotesco hoje carrega consigo elementos do próprio discurso hegemônico, ou ao menos os elementos mais visíveis da ação massiva dos media: a saber, a lógica do lucro e a atomização do indivíduo.

Teríamos o que podemos denominar de a degeneração do grotesco. Os programas populares que hoje se convertem em objetos preferenciais da crítica da mídia, ao invés de afastarem o medo, o incentivam, exercendo um poder de violência simbólica [4] que até pouco tempo era exclusivo do Estado. Trabalham com a violência simbólica e com a manipulação do real não para desmistificar o poder (simbólico e real) dos aparatos estatais, mas para substituí-los no plano simbólico. E o fato da violência simbólica agora ser compartilhada pelo Estado com a mídia não faz com que este poder altere suas funções dentro da ideologia hegemônica. Ou seja, a mídia exerce com supremacia a função antes melhor repartida com outros aparelhos ideológicos (o próprio Estado, a escola, a igreja etc.), função que “consiste essencialmente, como aparelho repressivo, em garantir pela força (física ou não) as condições políticas de produção, que são em última instância relações de exploração” [5]. Em outras palavras, não há mudanças de discurso. Pelo contrário, o enfraquecimento do Estado-nação neste processo fortalece o discurso hegemônico neoliberal: afinal, o que ocorre é nada mais, nada menos do que a privatização da violência simbólica [6].

Martín-Barbero retoma o conceito gramsciano de hegemonia para pensar “o processo de dominação social já não como imposição a partir de um exterior e sem sujeitos, mas como um processo no qual uma classe hegemoniza, na medida em que representa interesses que também reconhecem de alguma maneira como seus  as classes sulbaternas”. No entanto, a imagem de uma hegemonia que se refaz permanentemente antes de significar a desfuncionalização da ideologia (“nem tudo o que pensam e fazem os sujeitos da hegemonia serve à reprodução do sistema” [7]) pode indicar a permanência de um conjunto de valores inerentes à sociedade. Mais do que uma contestação do que uma apropriação do discurso pelo popular, tais programas confirmam o discurso dominante da falência do Estado. Aproveitam-se das formas do popular não para expressar anseios das classes populares, mas para esvaziar de sentido um outro discurso do real que não o homogenizador.

Não há um resgate da cultura marginal e seus personagens como símbolo da opressão aos excluídos, mas a sua condenação. Mesmo que o exagero do real seja um traço típico das culturas populares latino-americanas, não podemos deixar de notar como seus elementos técnicos manipulam a audiência ideologicamente [8].

Com isso não queremos indicar a existência de um processo linear baseado em decisões lógicas (como a imagem de complô internacional das classes dominantes sintetizada na expressão Consenso de Washington), mas que os valores da sociedade industrial não seguem esse movimento do refazer ideológico. Mesmo que o popular influencie o discurso e se faça presente nesta dialética constitutiva do hegemônico, a eficácia de sua resistência nos parece tão limitada quanto as dos movimentos que pretendem usar o consumo como arma contra as grandes corporações, boicotar marcas famosas por causa das condições miseráveis de trabalhos na Ásia e na América Latina. Os limites desta contestação são claros, pois “quando um logotipo tem toda a atenção, mesmo quando é utilizado taticamente para ilustrar questões maiores, outros ficam inquestionavelmente livres deste embaraço” [9].

Ou seja, ao atacar o sistema seguindo os padrões estabelecidos pelo próprio sistema, consegue-se afetar expoentes deste aparato hegemônico, mas não a sua estrutura (o aparato em sua totalidade), pois a lógica não é apenas mantida como acaba ampliando-se ao abarcar também a própria contestação.  “A revolta que rende homenagem à realidade se torna a marca de fábrica de quem tem uma nova idéia para levar à indústria” [10]. A contestação ao aparato ao invés de fundar-se em algum tipo de racionalidade crítica mergulha nas categorias dominantes da racionalidade técnica, transforma-se em rótulos [11] “sem exploração”, em mais um elemento de marketing para as marcas globais [12].

Do mesmo modo, temos que os programas populares – considerando-se os presentes na grande mídia, não os que conquistam espaços alternativos – aproveitam-se das formas do popular não para expressar anseios das classes subalternas, mas para esvaziar de sentido o discurso possível do popular, para absorver o popular na normatização inerente da indústria cultural. Daí a degeneração do grotesco e sua inversão de sentido: ao invés de contestar, insere ainda mais o indivíduo na cultura massiva e torna ainda mais predominante o discurso homogeneizante, independentemente das mediações feitas pelas camadas populares.

Jornalismo e manipulação ideológica

A absorção do popular pela indústria cultural e a degeneração do grotesco, no entanto, não deve nos levar a um contraponto imediato desta com a mídia “séria”, com um jornalismo supostamente orientado por padrões éticos rígidos. Mitificada como um dos pilares da democracia (o Quarto Poder), esta mídia realmente tem a função de integrar as classes e formar a identidade do Estado-nação. Não cabe aqui um levantamento historiográfico para saber se esta função algum dia foi cumprida, mas apontar para a crise deste mito/identidade nos dias de hoje.   Pois se no contexto popular há elementos que apontem tanto para uma resistência cultural quanto para a degeneração do grotesco, na mídia impressa (ou “séria”) não há dúvidas quanto à palavra a ser usada para definir o momento atual.  É uma crise econômica: assiste-se a falência da mídia impressa, que perde leitores para a internet e anunciantes para a TV. É uma crise de identidade: a tendência dos grandes grupos de comunicação em transformar tudo em espetáculo descaracteriza o conteúdo jornalístico. É uma crise profissional: assiste-se a diluição das fronteiras entre a publicidade e o jornalismo, assim como a manipulação (consciente ou inconsciente) da informação.

Tomemos como exemplo a análise feita em um trabalho de pesquisa [13] com a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo na campanha presidencial de 2002. Durante todo o período eleitoral, a mídia concentrou-se quase que exclusivamente em torno de três temas centrais: os resultados de pesquisas eleitorais, a repercussão das campanhas dos candidatos na televisão e a opinião de porta-vozes do mercado financeiro sobre as peças publicitárias e as declarações dos candidatos [14]. Ou seja, a cobertura midiática é mais fortemente influenciada pelas decisões dos coordenadores de marketing das campanhas do que por instâncias partidárias ou organizações civis, ainda que estas continuem a exercer certa influência regional. Além disso, a base para determinar a relevância das propostas é o aspecto qualitativo, ou seja, a posição de determinado candidato nas pesquisas, não a relevância ou a legitimidade de conceitos ou programas políticos. Tudo isso filtrado pelo discurso dominante que reflete os interesses do capital financeiro.

E se o controle ideológico não é exatamente uma novidade no cenário midiático, assistimos hoje a uma concentração monopolista e a afirmação de conceitos gerenciais baseados no modo de produção global que acarretam uma simbiose de processos técnicos e a diluição das fronteiras entre a publicidade e o jornalismo, assim como a manipulação (consciente ou inconsciente) da informação. “É um aparato racional, combinando a máxima eficiência com a máxima conveniência, economizando tempo e energia, eliminando o desperdício, adaptando todos os meios a um fim, antecipando as conseqüências, sustentando a calculabilidade e a segurança” [15]. As sinergias dos conglomerados de mídia comprometem a independência da produção e a concorrência no campo jornalístico [16] amplia-se de tal modo que mesmo as instituições mais conceituadas alteram suas práticas em nome de uma eficiência técnica e econômica, espetacularizando a notícia e deteriorando a legitimidade anteriormente adquirida.

O resultado é um controle midiático que direciona e formata a realidade, como pudemos observar na recente invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Um levantamento feito entre 30 de janeiro e 12 de fevereiro de 2003 pela Fairness & Accuracy in Reporting mostra que das 393 fontes utilizadas pelas redes de televisão (ABC, CBS, NBC e PBS) nesse período, 75%  era composta de militares ou ex-militares dos EUA e menos de 0,5% era afiliada a movimentos antiguerra (o número total de fontes céticas à pertinência da guerra foi de 6%) [17]. Como nunca, “[...] o nível de informação política e os conselhos que surgem das manifestações da indústria cultural são simples futilidades, ou ainda pior; os padrões de comportamento são desavergonhadamente conformistas” [18].

O sistema que controla esta massa tende, por causa da lógica da eficiência técnica, à concentração da propriedade dos meios informacionais. Uma monopolização da mídia e da indústria cultural que se torna cada vez maior. Nos EUA, por exemplo, a Federal Communications Comission tenta eliminar os entraves legais que limitam a concentração de vários veículos de mídia por um mesmo proprietário nas médias e grandes cidades e o número de estações de televisão em uma mesma rede [19]. Tais restrições de propriedade mantinham a diversidade de vozes em um “sistema [que] não funcionava sempre, mas colocava alguns limites” [20].  Na Itália, a relação entre controle da informação e controle das massas é paradigmática: “um único indivíduo [...] não apenas se tornou primeiro-ministro, mas conseguiu controlar todas as cadeias de televisão, algumas grandes editoras, alguns periódicos e poderá em breve controlar dois dos três maiores e mais consagrados jornais do país” [21].

Assim, não é de se estranhar que instituições de grande porte e reconhecidas no meio jornalístico como paradigmas de qualidade cometam deslizes como a manchete Matanza de ETA en Madrid estampada no site do jornal espanhol El Pais no dia dos atentados àquela capital (quando já eram grandes as dúvidas quanto a autoria do atentado) ou as matérias inventadas por Jayson Blair no jornal norte-americano New York Times.

O discurso homogenizador na sociedade globalizada

Se para Marx os homens não faziam a história “sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” [22], hoje o “cérebro dos vivos” é treinado para responder  objetivamente às demandas do sistema dominante, às estruturas padronizadas que fomentam a eficiência competitiva [23]. Os indivíduos atomizados pela indústria cultural são agrupados em multidões e perdem a consciência crítica proporcionada pela individualidade:

[a indústria cultural] impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente. Mas estes constituem, contudo, a condição prévia de uma sociedade democrática, que não se poderia salvaguardar e desabrochar senão através de homens não tutelados. Se as massas são injustamente difamadas do alto como tais, é também a própria indústria cultural que as transforma nas massas que ela depois despreza  e impede de atingir a emancipação para a qual os próprios homens estariam tão maduros quanto as forças produtiva da época o permitiriam [24].

Com a homogeneização do pensamento, qualquer tentativa da mídia em resgatar alguns de seus princípios e fugir do “consenso do senso comum” é logo sufocada por uma opinião conservadora majoritária, que considera “esses princípios como se eles derivassem do Manifesto Comunista” [25]. O resultado é um controle midiático que direciona e formata a mediação com a realidade, permitindo ao pensamento liberal alterar o desenvolvimento das relações de poder. Do mesmo modo que as “distinções enfáticas [da indústria cultural]... não são fundadas na realidade, quanto, antes, servem para classificar e organizar os consumidores a fim de padronizá-los” [26], a diferença entre mídia sensacionalista é esvaziada de significado, apenas conservado sua distinção para efeitos de marketing.

O discurso homogeneizado enfoca as demandas sociais apenas dentro de um limitado campo onde continuam prioritários os interesses de quem detêm os recursos (monetários, técnicos e tecnológicos) necessários para a construção de uma sociedade (idealmente) mais justa. A realidade apenas existe se fizer parte do sonho global de realização de lucros e do livre comércio. Qualquer alternativa política que procure assegurar “uma outra globalização” é logo descartada como ideológica e, portanto, não racional. No entanto, mesmo o racionalismo técnico do liberalismo é distorcido por uma ideologia [27], um “sistema de crenças” firmemente sedimentado nas estruturas de pensamento. O poder em um mundo globalizado e transformado pela tecnologia da informação é diluído em um novo espaço de fluxos [28], levando a economia a um novo embate com a política [29]. Temos um aparato de dominação no qual as formas conhecidas de soberania e os “países são disciplinados por uma multidão eletrônica de investidores que controlam o acesso ao capital numa economia globalizada” [30].

Adorno nos lembra que “a importância da indústria cultural na economia psíquica das massas não dispensa a reflexão sobre sua legitimação objetiva, sobre seu ser em si, mas ao contrário, a isso obriga”. Tirar o debate do como fazer midíatico para o para que fazer pode  nos ajudar a escapar do racionalismo técnico. Com as atividades econômicas, organização social, estrutura do trabalho e relações culturais transformadas pela sociedade midiatizada, a ação política precisa ir além de seus tradicionais campos de atuação.

A possibilidade de novas vozes comunicacionais

Em uma discussão que aborda o método científico peirciano a partir de sua oposição ao método cartesiano, Santaella nota que “a grande novidade da teoria peirceana dos métodos está na sua demonstração de que, para negar as mazelas de um racionalismo exclusivista, não temos que partir para a glorificação do emocional e da irracionalidade” [31]. A observação nos parece adaptável para nossos objetivos de crítica da mídia, pois assim como aprofundar-se nas mediações transcende a simples análise do discurso, também não podemos perder de vista o discurso imposto midiaticamente e movimento desencadeado por este sentido. Não importa como se dá a apropriação dos elementos populares pela televisão, mas o resultado político de tal apropriação. Independentemente de como se dá a mediação (e os estudos feitos neste sentido são importantes para entendermos os processos comunicacionais), não podemos deixar de atentar para os efeitos massivos.

Com isso, queremos dizer que o estudo das mediações não pode entender a presença do popular no discurso hegemônico como um valor positivo per si e que os resultados sociais provocados pelos sentidos dos discursos e suas mediações devem estar sempre presentes na análise. Como lembra Hannah Arendt,  “o que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não-totalitário é o fato de que a solidão [..] passou a ser [...] a experiência diária de massas cada vez maiores. O impiedoso processo no qual o totalitarismo engolfa e organiza as massas parece uma fuga suicida desta realidade” [32].

Ao mesmo tempo em que a sociedade de massas possibilita o aparecimento da democracia e dá voz àqueles que nunca tiveram, ela também corrompe o indivíduo, como já notara Toqueville. A questão central, portanto, é saber se a sociedade de massas esconde o ovo da serpente no ninho democrático, ou seja, se o totalitarismo não é um incidente lamentável, mas sim uma conseqüência natural de suas características estruturais.

Tal reflexão provoca uma angústia crescente com os aspectos homogeneizantes de uma assim chamada cultural global e nos leva a querer entender  o processo comunicacional em um sentido mais amplo. Deste modo, pensamos inicialmente em analisar duas conseqüências dicotômicas do avanço das tecnologias emergentes da informação: o aumento do aparato de controle  e a possibilidade do surgimento de novas vozes comunicacionais.

Como vimos, com a produtividade dos agentes econômicos dependendo da capacidade de processar conhecimento, grosso modo, o controle do acesso à informação é determinante na constituição social do mundo globalizado. Para além do controle dos meios, há a reprodução técnica de valores com um discurso predominantemente homogeneizado que enfoca as demandas sociais apenas dentro de um limitado campo onde continuam prioritários os interesses de quem detém os recursos monetários e tecnológicos. Neste contexto, a realidade possível é a que integra o sonho globalizado de realização de lucro e livre comércio em sua dinâmica neoliberal.

Mas, por outro lado, as estruturas de comunicação em rede podem também permitir o aparecimento de novas formas de comunicação, sendo teoricamente possível escapar dos aparatos ideológicos de controle. Talvez uma consciência crítica decorrente de um discurso dialógico, se este existir nos meios emergentes de informação, possibilite o surgimento de  valores não pertencentes ao aparato político-social-cultural-econômico dominante. Seria usar a mesma tecnologia que permite a maior integração do branding dos produtos culturais para uma possível libertação do indivíduo massificado, transformando-o em sujeito do processo cultural.

Acreditamos que o primeiro passo para a compressão das potencialidades e limitações das novas formas de interação social proporcionadas pelas redes digitais é verificar até que ponto o discurso ideológico é refletido e refratado nestes meios emergentes de comunicação. Procurar-se-á, nos estudos a serem realizados, compreender até que ponto o meio, enquanto estrutura descentralizada, favorece a autodeterminação das comunidades cibernéticas e a diversidade cultural, social e política, ao menos em comparação aos aparelhos tradicionais da indústria cultural.
Isto nos leva  imaginar o que significaria ocupar o espaço da mídia com informação não controlada:

[...] mudaria o modo de produzir a informação e assim o de intervenção política [...], [haveria contra os grandes dinossauros da comunicação de massa] o mesmo  movimento de desconfiança que a maioria da população italiana desenvolveu em relação aos jornais e  rádios controlados pelo regime fascista. [...] Ao novo totalitarismo não se opõe indo para as montanhas, mas conectando-se online. [33]

Se a observação de Eco está correta, a resistência às novas formas de totalitarismo só será possível com o acesso irrestrito à informação. Pois se a informação é controlada e mediada por uma indústria cultural monopolizada, o controle das massas é legitimado pela alteração ideológica da realidade. Isócrates já nos alertava que é não é “nos programas educacionais de diversos reformadores, mas nas circunstâncias totais da época, que se devia procurar os fatores verdadeiramente culturais... [ e que] ... a paidéia em sentido positivo só [é] possível na forma de reação consciente dos indivíduos isolados contra as tendências gerais da evolução” [34]. Após 2.400 anos ainda estamos à procura desta consciência. O desenvolvimento de uma racionalidade crítica, de uma “alfabetização midiática” que nos “imunize” do discurso homogenizante, pode ser o primeiro passo para a descoberta de uma nova forma de agir político que nos afaste definitivamente do fantasma totalitário.

Notas

  1.  CASTTELS (2001 Vol.2), pp. 373-396
  2. IANNI (2000), pp. 139 e seguintes
  3. Ressalta-se que “o objeto, aqui, não é o ‘poder dos jornalistas’ – e menos ainda do jornalismo como ‘quarto poder’ -, mas a influência que os mecanismos de um campo jornalístico cada vez mais sujeito às exigências do mercado (dos leitores e dos anunciantes) exercem, em primeiro lugar sobre os jornalistas (e os intelectuais-jornalistas) e, em seguida, e em parte Através deles, sobre os diferentes campos de produção cultural, campo jurídico, campo literário, campo artístico, campo científico” (BOURDIEU, 1997: 101).
  4. “A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cumplicidade tácita dos que a sofrem e também, com freqüência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de excercê-la ou sofrê-la”. BOURDIEU (1997: 22).
  5. ALTHUSSER (2001), p. 74.
  6. Lembramos que para Althusser “enquanto que o Aparelho (repressivo) do Estado, unificado, pertence inteiramente ao domínio público, a maior parte dos Aparelhos Ideológicos do Estado (em sua aparente dispersão) remete ao domínio provado” (ALTHUSSER, 2001: 69). O que nos leva a perceber que mudam os objetos e suas relações, mas que essencialmente é o mesmo debate que nasce com a modernidade. Termos como pós-modernidade, neo-liberalismo ou globalização apenas revestem de uma nova “roupagem” (mais “vendável) o que antes era conhecido com o industrialização, capitalismo e imperialismo.
  7. MARTÍN-BARBERO (2003), p. 116.
  8. Seria interessante verificar se programas como Cidade Alerta (TV Record) e Brasil Urgente (Band) fazem sistematicamente o julgamento de membros das classes inferiores que fogem da normatização social. Ou seja, pesquisar se há a predominância de crimes cometidos por membros das classes menos favorecidas contra membros de classes mais altas. E também o comportamento da mídia quando membros da classe média atacam alguém da mesma classe social (como no caso Gil Rugai) e nos casos hediondos como a morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado por quatro jovens de classe média em um ponto de ônibus de Brasília em abril de 1997.
  9. KLEIN (2003), p. 450.
  10. ADORNO (2002), p 25.
  11. O conceito “marcas, não produtos” continua a seduzir as grandes empresas de mídia. Em entrevista ao jornal interno da Editora Abril em dezembro de 2002, seu presidente Roberto Civita declara que “a Abril não precisa ser dona da frota de caminhões que distribui nossas revistas, precisa é saber contratar a frota que faz isso com competência e preço competitivo. No mundo todo está mudando a visão do que uma empresa precisa ter ou fazer. A Nike, por exemplo, não faz um só par de tênis: ela desenha, desenvolve o projeto de cada modelo, faz o marketing e terceiriza a fabricação”. O aumento do trabalho terceirizado nas redações (free-lancers) é um indício de que esta nova visão empresarial não está necessariamente confinada a questões de logística de distribuição, mas também atinge a produção.
  12. KLEIN (2003), p. 456.
  13. SAISI (2003). Dissertação de Mestrado apresentada na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero.
  14. SAISI (2003), p. 375.
  15. MARCUSE (1998), p. 80.
  16. “Diz-se sempre, em nome do credo liberal, que o monopólio uniformiza e que a concorrência diversifica [...], mas observo apenas que, quando ela se exerce entre jornalistas ou jornais que estão sujeitos às mesmas restrições [...], ela homogeneíza” (BOURDIEU, 1997:31). 
  17. FAIR (2003)
  18. ADORNO (1986), p. 96.
  19. Washington Post (2003).
  20. KRUGMAN (2002). No original: "Restrictions on ownership maintained a diversity of voices. And there was a general expectation that major news outlets would stay above the fray, distinguishing clearly between opinion and news reporting. The system didn't always work, but it did set some limits. Over the past 15 years, however, much of that system has been dismantled.”
  21. ECO (2003). No original: "un solo individuo, manovrando con accortezza una propria fortuna personale, non solo è diventato presidente del Consiglio, ma è arrivato a controllare la totalità delle catene televisive, alcune grandi case editrici, alcuni quotidiani e (mentre scrivo si sta consumando tra molte incertezze la tragedia Fiat) potrebbe entro breve tempo ottenere il controllo di due fra i tre più diffusi e autorevoli quotidiani nazional".
  22. MARX (1988), p. 07.
  23. O indivíduo eficiente é aquele cujo desempenho consiste numa ação somente enquanto seja a reação adequada às demandas objetivas do aparato, e a liberdade do indivíduo está confinada à seleção dos meios mais adequados para alcançar uma meta que ele não determinou. (MARCUSE, 1998: 78).
  24. ADORNO (1986), p. 99.
  25. ALTERMAN (2003). No original: "Why, then, if liberals are speaking little more than consensus common sense, do they seem to be in danger of political oblivion? Well, lots of reasons actually, but a big one is a right-wing opinion media that treats these principles as if they derived from The Communist Manifesto."
  26. ADORNO (2002), p. 12.
  27. Encontramos no Dicionário de Política de Bobbio dois significados de ideologia. O significado fraco constitui no sistema de crenças políticas, um conjunto de idéias e de valores respeitantes à ordem pública e tendo como função orientar os comportamentos políticos coletivos”. O significado forte de ideologia é originário da definição marxista de ideologia, entendida como falsa consciência das relações de domínio entre as classes. (BOBBIO, 1983: 585 a 589).  Já Arendt diz que (...) a ideologia difere da simples opinião na medida em que se pretende detentora da chave da história, e em que julga poder apresentar a solução dos “enigmas do universo” e dominar o conhecimento íntimo das leis universais “ocultas”, que supostamente regem a natureza e o homem (ARENDT, 2000: 189).
  28. CASTELLS chama de espaço de fluxos a nova lógica espacial da sociedade em rede. Este novo espaço é caracterizado pelas redes de comunicação e pela rede do sistema financeiro (e seus nós ou espaços físicos privilegiados, como Nova York, Londres e Tóquio). As redes unem diferentes lugares, atribuindo a cada um deles pesos e papéis diferentes em uma hierarquia de geração de riquezas, processamento da informação e poder (...) o espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos. (CASTELLS, 2001 – Vol. 1: 404, 436 e 439).
  29. Repete-se o conflito entre burguesia e Estado do final do século XIX, quando ficou patente que o Estado-nação não se prestava como estrutura para maior crescimento da economia capitalista e (...) a luta latente entre o Estado e a burguesia se transformou em luta aberta pelo poder. (ARENDT, 2000: 154).
  30. FRIDMAN, T. The Lexus and the Olive Tree: Understanding Globalization, citado em NYE (2002), p. 33
  31. SANTAELLA (2004), p. 28.
  32. ARENDT(2000), p. 530
  33. ECO (2003). No original: "Ed ecco che, così come la rappresentatività elettorale potrebbe essere sostituita da una presenza reticolare di gruppi di pressione, si potrebbe avere una circolazione di informazioni non controllabili e non controllate che gradatamente occuperebbero lo spazio di persuasione una volta occupato dai giornali e dalle televisioni. Cambierebbe il modo di fare informazione e dunque quello di intervenire politicamente [...] lo stesso atteggiamento di diffidenza che la maggioranza della popolazione italiana aveva elaborato verso i quotidiani e la radio controllati dal regime fascista. [...] Non dico che non valga la pena di preoccuparsi se qualcuno cerca di impadronirsi del "Corriere della Sera", ma non sarebbe male anche prepararsi allo scenario alternativo. Al nuovo totalitarismo non ci si oppone andando in montagna ma inserendosi "on line".
  34. JAEGER (1995), nota 22, p 1151.

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Carlos Sandano é jornalista profissional desde 1992, com passagens pela Folha de S. Paulo, Editora Abril , Gazeta Mercantil, TV Senac e Rádio Bandeirantes, entres outros. É pós-graduado em Teorias e Técnicas da Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero e especialista em Docência On-Line pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Atualmente é professor de Mídias Digitais, no Centro de Educação Tecnológica Interamericano e mestrando no Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo. É diretor de conteúdo da Pluricom Comunicação Integrada.

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