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Inclusão digital à luz de Haug e Ianni

Mar 10, 2009

Olavo Soares analisa o conceito de "inclusão digital" nos programas dos candidatos à prefeitura de São Paulo em 2008.

A intenção do ensaio é discutir o conceito de “inclusão digital”, tão em voga nos dias atuais, à luz dos pensadores Wolfgang Haug e Octavio Ianni.

 
1. A inclusão digital

A expressão figura em políticas de ONGs, de instituições de combate à pobreza, nas fundações veiculadas a grandes corporações, até mesmo em igrejas. Não foge, evidentemente, dos debates políticos.

Refere-se a um processo de reversão de um quadro constatado pela existência de um número elevado de pessoas à margem dos contextos da atual sociedade da informação. A inclusão digital, nesse caso, combateria justamente seu oposto, a exclusão, dando a essas pessoas a possibilidade de interagirem com uma onda de efeitos amplos e irreversíveis.

A título de exemplificação, uma referência: nos programas de governo dos dois candidatos que foram ao segundo turno da eleição para a prefeitura de São Paulo em 2008, a inclusão digital é citada como sendo uma questão prioritária de administração pública.

O programa de governo de Gilberto Kassab (DEM), em sua página 79, cita a criação da Coordenadoria de Inclusão Digital, veiculada à Secretaria de Participação e Parceria, como uma das principais realizações do mandatário frente à chefia do executivo. Já o de sua adversária, Marta Suplicy (PT), apresenta como sendo uma das metas da candidata a ampliação da “inclusão digital com acesso a internet banda larga através de escolas, telecentros e demais equipamentos públicos municipais”. (página 13)

Vê-se então, por esses e outros exemplos, que a sociedade da informação determina que o acesso aos meios tecnológicos é questão prioritária. É imperativo que o poder público aja para combater o mal; imperativo também porque, de acordo com essa visão, o estar excluído digitalmente corresponde a uma condição irrefutável de exclusão em outras esferas sociais, num definitivo ciclo de retro-alimentação: se é excluído digitalmente por ser excluído socialmente, e vice-versa.
 
2. Inclusão digital e tecnocracia

A relevância do saber técnico é imprescindível. É necessário conhecer a tecnologia, ter noção de seus desdobramentos e aplicá-los, sempre que possível, à gestão pública.

É aí que se identifica um gancho entre a necessidade de inclusão digital e o conceito de tecnocracia. Diz-se que uma sociedade tecnocrata será aquela pautada pela aplicação de princípios técnicos em cada questão governamental; um contexto em que os administradores não são políticos, e sim técnicos.

Ianni (1976, p.69) apontava que os Estados Unidos são “a primeira sociedade tecnotrônica da histórica”. O comentário é publicado em 1976, distante mais de 30 anos do cenário atual, mas permanece preciso: os principais vértices tecnológicos da sociedade da informação são empresas localizadas nos Estados Unidos. De fato, ainda que haja avanços nos campos do software livre, das marcas alternativas, do fomento à iniciativas individuais e localizadas em pontos diferentes, o processo comunicacional-computacional é eminentemente norte-americano. As principais marcas relacionadas a esse contexto – IBM, Google, Microsoft, Yahoo!, entre outras – são dos Estados Unidos.

De modo que o pensar na imprescindibilidade da inclusão digital é algo que remete, essencialmente, aos Estados Unidos – e à forma de constituição de poder naquele país. A tecnicidade norte-americana, tão admirada no campo da tecnologia (afinal, é lá que está a maior parte das inovações) também se transfere ao mundo administrativo. Ianni alerta que o “fetichismo tecnológico” (ibidem, p.67) transfere as questões políticas da esfera governamental para contextos puramente técnicos. É, talvez, um risco de se considerar a inclusão digital como uma plataforma incontestável de sucesso em uma política de melhorias sociais.

Há também outro campo a ser analisado. Sabe-se que o momento atual vê a tecnologia, em especial a da comunicação, como um ator decisivo – ou até mesmo o protagonista – da s nuances culturais. A facilidade de transmissão de conteúdo dá ao contexto contemporâneo uma facilidade ímpar de divulgação de conhecimentos, de repasse de informações, culturais ou não, jamais vista. Se por um lado é um ponto a ser celebrado, do outro cabe a reflexão de que esse procedimento só é possível por conta de um avanço cujas bases iniciais estão na melhoria da produção industrial – que gera, numa perspectiva marxista, uma competição mais acelerada e a conseqüente piora na condição de vida do trabalhador desse sistema. Ianni (ibidem, p.22) acrescenta que o capitalismo “é um modo de produção material e intelectual” – ou seja, assim como a tecnologia serve para que os processos industriais sejam melhor realizados, ela também colabora para a delimitação de um padrão cultural, a seguir determinados interesses.

Esses interesses, para o autor, são delimitantes – anseios e aspirações acabam por ter suas fronteiras determinadas pela própria sistemática da produção. Ianni finaliza (ibidem, p.56): “a indústria cultural do imperialismo está organizada para manipular”.

Conclui-se, a partir daí, que o princípio da inclusão digital deve ser visto de maneira mais atenta. Não traz apenas virtudes; se por um lado traz o indivíduo para a sociedade da informação, por outro fomenta a formação de uma sociedade tecnocrática conduzida por um ente maior, que a rege com fins de dominação imperialista.
 
3. Estética e anseios controlados

Haug também atenta para a normatização dos anseios, quando apresenta sua crítica às “tendências de padronização da sensualidade” (1997, p.122). Um dos meios para a obtenção desse caminho único, na avaliação do autor, é a valorização da juventude; o “ser jovem”, além do seu apelo estético, é algo a ser celebrado como também um campo para a obtenção de um maior saber, de uma maior virtude.

Ora, o que é a ‘febre’ acerca do mundo computacional senão uma celebração do novo? Se computadores já existem desde a década de 1970, é no decênio atual que eles se tornam utensílios passíveis de rivalizarem-se com as televisões enquanto objetos de entretenimento para a família média. E com mais possibilidades, já que não demandam a participação passiva típica da televisão.

Mas os festejos para o novo atendem a uma necessidade, segundo Haug: o fortalecimento da estética da mercadoria. “O encanto juvenil encontra-se com freqüência a serviço da estilística da mercadoria” (ibidem, p.123), aponta o autor. Tem-se então uma corrente a ser seguida: é preciso ser jovem, é preciso admirar o belo, é preciso elevar a estética dos objetos.

Essa estética estimulada contraria um princípio essencialmente humano, que é o das reações inesperadas diante de um evento novo. Haug destaca: “a imediaticidade sensual deve ser quebrada e tornar-se completamente dominável”. Ou seja: num contexto em que as lógicas de mercado prevalecem, as emoções seguem roteiros pré-estabelecidos.

Com a inclusão digital, têm-se um grande número de pessoas acessando os mesmos computadores, tendo acesso às mesmas redes – que, ainda que dinâmicas, seguem determinados roteiros e padrões. Nesse cenário, as manifestações humanas acabam por ser as mesmas. É viável pensar em uma ‘rebeldia’, em um comportamento fora do padrão se o ‘estar excluído’ torna-se algo unicamente técnico e consensualmente danoso, portanto, com uma ‘solução’ previamente definida, aguardando apenas a resolução de filigranas burocráticas para ser aplicada?

Cabe ressaltar que Haug já apontava que o capitalismo contemporâneo difere-se do nascido nos tempos da queda do antigo regime por conta, entre outras coisas, de seu volume de vendas. Se outrora se pensava em fazer comércio com poucos e bons pagadores, o momento atual é de massificação; ou, nas palavras do autor, “não são mais os artigos de luxo que determinam os negócios, e sim os baratos” (ibidem, p.33). É o que a inclusão digital gera: emails gratuitos, acesso a custo baixo (ou até mesmo zero), telecentros, ‘laptops de 100 dólares’: um mercado mais amplo, que gaste individualmente pequenas quantias, mas que seja responsável por uma mobilização ampla.
 
4. Conclusão

Da maneira como é tratada por muitos agentes públicos, a inclusão digital é apresentada como uma questão puramente técnica. Há pessoas sem acesso a computadores e ao mundo da rede, e que, com disponibilidade da tecnologia e um ou outro auxílio técnico estariam inseridas nesse mundo. Resolver-se-ia, dessa forma, o problema.

A leitura de Haug e Ianni sugere que a avaliação de questões de inclusão/exclusão, se feita de maneira simplista e tecnicista, acaba por apresentar soluções do mesmo calibre e, portanto, ineficazes para o combate a um problema superior. Porque o cenário, segundo os autores, é de uma restrição de liberdade e de possibilidades de conhecimento que supera o simples acesso ou não a um computador – é só notar que ambas as obras foram concluídas antes do conceito de inclusão digital tornar-se um mantra nas discussões sociais.

Pede-se, então, que questões não-técnicas tenham também essa mentalidade no momento de sua resolução.
 
5. Bibliografia

Diretrizes 2009/2012. São Paulo no rumo certo. São Paulo, 2008. Disponível em <http://www.kassab25.com.br/files/livreto_diretrizes.pdf>

Programa de governo. São Paulo, 2008. Disponível em <http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/files/MartaSuplicy.pdf>

HAUG, Wolfgang F. Crítica da estética da mercadoria. São Paulo: Editora Unesp, 1997.

IANNI, Octavio. Imperialismo e cultura. São Paulo: Vozes, 1976.


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Olavo Soares é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em 2004. Atualmente, faz pós-graduação em Marketing Político e Propaganda Eleitoral também na ECA-USP. É diretor do Portal da USP (www.usp.br) e atua como colaborador em outros veículos impressos e de internet.

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