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O som como um organismo vital

May 21, 2007

Na era da imagem, o som não era. Ele é, e sempre será, um importante articulador de sentidos e informações.

Na era da imagem, o som não era. Ele é, e sempre será, um importante articulador de sentidos e informações. “Somos feitos de silêncio e som”, diz a canção de Lulu Santos (Certas coisas). “Minha voz, minha vida, meu segredo e minha revelação”, canta Gal nos versos de Caetano Veloso (Minha voz, minha vida). Noel Rosa, em Três apitos, disse que “quando o apito da fábrica de tecidos vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você”. E assim vai o som, propagando imagens tão belamente sugestivas que nenhum outro código visual poderia fabricar, pois trata-se de imagens que se desenham e se apagam no tempo, renascendo sempre com feições diferenciadas. Imagens singularmente configuradas, pois brotam na nascente da alma de cada indivíduo que se deleita aos acordes de uma sinfonia, aos versos de uma linda canção, aos efeitos de uma paisagem radiofônica.

O som, quando pensado e sentido, nos faz mais humanos, nos salva do tédio de um cotidiano imageticamente banalizado, excessivo de ilustrações, vitrines e telas vazias de sentido e inspiração. São Tomé tinha que ver pra crer. Perdeu tempo. Santa Luzia, não. Ao ter os olhos arrancados, enxergou mais bonito ainda, porque enxergou com a luz do coração. A justiça – o mito, não a dos homens - é cega, porque o ouvir é puro, não atura vícios. Kandinsky, o pintor de não-imagens, dizia que ver é estar doente dos olhos. Doente como Ray Charles, Stevie Wonder, o albino Hermeto e, perdão pelo clichê, o amor, o mais cego dos sentimentos. Mas isso não fui eu que disse, e sim, Caetano, que não é cego, mas suas melhores composições não indicam alguém que ver o mundo com os olhos.

Entretanto, o som é um signo de natureza cruel, pra quem produz e pra quem recebe. Invisível, nasce e morre em seguida, sem deixar rastros no espaço, apenas no tempo. Talvez por isso, para tantos impacienta lê-lo, decodificá-lo, interpretá-lo. Em quê confiar se não o vemos? Onde lançar a visão se não o temos materializado numa superfície palpável? Não me furto a responder: pra dentro de nós mesmos, lugar das pulsações vitais. Do coração que bate (lembro do Tic-tac do coração cantado por Carmen Miranda), do sangue que corre quente nas veias, da água que borbulha em nosso cérebro, do estalo dos nossos mínimos ossos, até mesmo do piscar dos nossos olhos (não se engane: ver necessita do ouvir, ouviver).

Tudo é ação, tudo é som. E se existe essa sinfonia orgânica em nós é porque estamos vivos, saudavelmente vivos. Funcionamos à base de uma orquestração de sonoridades internas, mas só nos damos conta de sua importância e beleza quando algum desses instrumentos falha, atravessa a melodia, desafina, arrebenta a corda. É, então, nesse momento, que já não somos mais maestros de nós mesmos, necessitando, para o recomeço da sinfonia, de ajustes técnicos e intervenções mecânicas. Ou seja, precisamos ir urgente ao conserto. Quantas vezes já ouvi alguém me dizer assim: ouça a voz do seu coração. À primeira batida, parece conselho sentimental dos mais baratos, mas, na taquicardia do delicado instante, é a única voz que me serve de guia, que me faz dormir em paz. E, ao dormir, vêm os melhores sonhos, os delirantes sons que embalam o descanso dos justos.

Nem nos sonhos o som nos abandona. Fiel companheiro, nos cerca por todos os ângulos: da TV ligada baixinho pra chamar o sono à campainha ingrata do despertador, pra acabar com o sono. Frequenta tanto o “radinho de pilha que Genival Lacerda deu pro seu bem” quanto aquele que o torcedor leva ao estádio pra assistir ao jogo. Ver não o satisfaz, é a recriação do fato em sons que o faz vibrar. O mesmo radinho que a empregada não desgruda um só momento, enquanto varre, passa e faz a comida. O som está no computador, que nunca andou tão sonoro quanto agora. Mais do que pai de santo, toda espécie de sonoridade ele baixa: música, fala, (d)efeitos...MP3, iPOD, walkman, CD player: tudo máquina de ouvir, de sair do mundo dos ruídos ambientes pra imergir no ambiente individual da música. E ainda nem falei sobre o telefone, código sonoro por excelência, que liga, toca, chama, vibra, silencia.

O elemento sonoro está na música da reportagem séria do principal telejornal, na vinheta do programa de humor da meia-noite, no BG da matéria final do programa de esporte do meio-dia. Tá na trilha de abertura de um belo documentário chamado Estamira (Marcos Prado), na sequência inicial de Cartola, (Lirio Ferrereira e Hilton Lacerda), quando um microfone aberto roça numa ossada de um defunto-autor-compositor, que não se cala nem morto. Na propaganda de perfume famoso, que usa o canto de Billie Holiday pra criar uma atmosfera inebriante. Até sentimos a fragrância. Na voz companheira do locutor de FM, que não nos conhece mas nos reconhece solitários às duas da manhã, dentro do carro, num ponto qualquer das marginais. Tá no longa Vermelho como o céu, sobre um garoto que, ao perder a visão, lê o mundo pelas pistas sonoras que o rondam. No curta intitulado Pormenores (Flavio Frederico), que abdica da fala pra narrar a inexistência de diálogo entre um casal. Na natureza, tá na chuva que chia lá fora, no trovão desmedido a nos assustar, no vento que sopra na vela singrando o rio, na explosão das ondas nos rochedos, no fogo a crepitar na fogueira das festas juninas, tão coloridamente musicais.

Narrador onisciente, o som se impõe, solicita o seu lugar de origem, pois diz a lenda – e toda lenda, se não verdadeira, é sonora - no princípio era o verbo, e só depois se fez a carne-imagem. Quer-se ativo, vulcânico em lavas, aquecendo o ânimo das narrativas sonoras e audiovisuais, tecnologicamente bem nutridas mas carentes de lampejos criativos. Não lhe fazemos bem sentando-o à margem da imagem, subjugando-lhe as forças inventivas de sua atuação enquanto um poderosíssimo regente de sensações, densas ou sutis. O som quer-se inteiro, pleno, em alto e bom tom. Quer libertar-se da condição de enfeite, adorno para a (in)festa, ação da imagem. Quer, e deve, mostrar sua própria imagem. Mesmo quando só exista o silêncio. E não há música mais bela do que a do silêncio. E “melhor do que o silêncio, só João” (Gilberto), cantou mais uma vez Caetano. 

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Armando Prazeres é jornalista pela UFRN, mestre em Comunicação e semiótica pela PUC-SP, professor dos cursos de Rádio e TV e Jornalismo das universidades Anhembi Morumbi e São Judas Tadeu. Curador da exposição Haroldo de Campos – um poeta de várias galáxias.

Contato: [email protected]
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