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OPINIÃO | Autismo: a necessidade de um olhar político cuidadoso

Sep 10, 2006

“O diagnóstico e encaminhamento da criança autista para profissionais habilitados é só o começo de uma longa jornada”, explica Wilma Motta neste artigo.

OPINIÃO | Autismo: a necessidade de um olhar político cuidadoso

Wilma Motta

Por Wilma Motta

Fala-se muito em autismo ultimamente. Não que esta síndrome tenha sido diagnosticada recentemente, mas porque aumentou a chance de um diagnóstico precoce, possibilitando intervenções ainda na primeira infância. Muitos daqueles parentes e conhecidos que eram tratados como doentes mentais, agora têm a oportunidade de serem encaminhados para atendimentos especializados. Isto, sem dúvida, proporciona-lhes a expectativa de melhores prognósticos.

O caminho para se chegar ao consultório psiquiátrico é árduo. Requer, antes de tudo, um fortalecimento da família para que, juntos, possam adentrar neste universo desconhecido, com todos expressando suas expectativas, necessidades, angústias, medos e dúvidas. Como a regularidade é algo intrínseco ao modo de ser da maior parte das pessoas, o inesperado assusta, sendo mais fácil a segregação do diferente do que o entendimento das origens da sua condição.

Na sociedade de base agrária, o ritmo de vida era mais lento e a economia se dava no espaço doméstico. Isso possibilitava a incorporação e a convivência social dos “diferentes” em suas variadas manifestações e possibilidades de existir. Com o advento da sociedade industrial, o espaço da realização do trabalho passou a ser público e a vida se deslocou para os centros urbanos. A família, por necessidade de sobrevivência econômica, desintegrou-se e o cuidado dos seus familiares que apresentavam qualquer tipo de deficiência ficou circunscrito a unidades asilares. Ou seja, foram segregados.

O autismo começa a fazer parte da história da psiquiatria a partir da década de 40, com a descrição de casos de crianças que apresentavam em comum a dificuldade do convívio social. De lá para cá, observa-se que o atendimento aos autistas, em grande parte, ainda está equivocado, seja devido à proposta de intensa estimulação (muito mais adequada aos portadores de deficiências mentais) ou por não respeitar as particularidades de suas manias, obsessões e rituais. Inadequações de procedimentos que decorrem do desconhecimento desta síndrome, por parte inclusive da comunidade médica.

Diagnosticar o autismo e encaminhar a criança para profissionais habilitados é somente o começo desta longa jornada. Ao iniciar o convívio com a realidade de “ser especial”, há a necessidade imperiosa de saber conviver com preconceitos que partem, primeiramente, da própria família. E as dificuldades com higiene, alimentação e outros hábitos da vida cotidiana se estendem, muitas vezes, até a vida adulta, pois a capacidade para a independência é uma conquista que poucos alcançarão.

Restará, portanto, à família oferecer o suporte integral e durante toda a vida ao seu membro autista. E além dos cuidados da vida diária, há o tratamento terapêutico, a questão financeira e o lado afetivo. No entanto, poucas são as famílias que reúnem estas condições, já que a maior parte fica comprometida psiquicamente, isolando o autista de todo e qualquer convívio social. A família torna-se autista.

Para trazer estas pessoas para uma condição saudável de existência, é necessária uma vasta oferta de serviços que conjuguem, no mínimo, o atendimento psiquiátrico, psicológico, pedagógico e neurológico. E reconheçam que não só o autista, mas também as famílias precisam ser encaradas como sujeito no autismo.

Nesse aspecto, há muito que mudar na realidade brasileira. Temos deficiências de elementos essenciais para a sobrevivência, o que é sabido por todos. Mas o que fazer com os autistas? Como proporcionar condições de vida minimamente dignas? Não existe uma receita pronta, até porque a vida não pode e não deve estar referendada em um modelo único. Mas é certo que o atendimento deve estar pautado na constatação de que as necessidades dos indivíduos são particulares.

Isto significa conhecer o autista, pois existe uma grande variedade de manifestações desta síndrome e alguns profissionais chegam mesmo a mencionar a ocorrência de vários tipos de autismo. Também precisamos implementar políticas públicas que contemplem os recursos terapêuticos.

A internação psiquiátrica é um procedimento médico e pode ser discutida em termos científicos. Mas existem questões que adentram na esfera cultural, como a chegada à vida adulta do autista e o despertar da sexualidade. Não é um assunto fácil: se lidar com o transcurso normal da sexualidade nem sempre é tranqüilo, com um filho autista, que pode até manipular-se publicamente, é ainda mais complexo.

É preciso ter a coragem de reconhecer que nem tudo pode ser administrado dentro da família. As formas de comportamentos inadequados que os autistas podem apresentar variam desde uma manifestação de carinho com uma pessoa desconhecida até rompantes de grandes crises de auto e hetero-agressividade. Como é possível lidar com essas situações no dia-a-dia, 24 horas por dia? É muito desgastante. Algumas famílias profissionalizam-se no autismo e cumprem uma rotina diária de tratamentos. Mas nem todas conseguem.

É nesse sentido que a internação psiquiátrica pode ser benéfica. Não se trata aqui de entendê-la como internações em hospitais psiquiátricos ou manicômios. A proposta parte de um enfoque terapêutico e a internação dos autistas deve ocorrer em unidades denominadas residências assistidas, que oferecem o abrigo de um lar e onde a potencialidade de cada um é trabalhada dentro das particularidades de seus limites. Infelizmente, poucas famílias com membros autistas contam com recursos financeiros para este atendimento. Por isso, a necessidade urgente da inclusão social do autista ser encarada como política de governo. 


Wilma Motta foi presidente do Secretariado Estadual e vice-presidente Nacional do PSDB-Mulher. Atualmente, é membro da Executiva Nacional do partido, onde integra a Comissão de Ética, e é vice-presidente do Instituto Sérgio Motta. É candidata a deputada estadual pelo PSDB-SP. Mais informações estão disponíveis no site: www.wilmamotta45455.can.br
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